Conteúdos e materiais

Skills-based hiring: por que empresas estão olhando além do currículo na hora de contratar

Skills-based hiring: por que empresas estão olhando além do currículo na hora de contratar

Skills-based hiring: por que empresas estão olhando além do currículo na hora de contratar

Formação acadêmica, empresa anterior, cargo e tempo de experiência. Durante décadas, essas informações funcionaram como alguns dos principais filtros utilizados pelas empresas para decidir quem avançava, ou não, em um processo seletivo. Existe uma lógica por trás disso: quando precisamos avaliar muitos candidatos, utilizamos sinais que ajudam a reduzir rapidamente o universo de possibilidades. Um diploma sugere determinado conhecimento, uma empresa reconhecida sugere determinado nível de experiência e um cargo anterior sugere determinadas responsabilidades.

O problema começa quando confundimos esses sinais com aquilo que realmente queremos descobrir: essa pessoa consegue fazer o trabalho? É justamente essa pergunta que está por trás do crescimento do skills-based hiring, ou contratação baseada em competências.

Em vez de utilizar principalmente formação, cargos anteriores ou anos de experiência como indicadores da capacidade de um candidato, essa abordagem procura identificar as competências necessárias para determinada posição e encontrar evidências de que aquela pessoa realmente as possui. A discussão ganhou ainda mais importância à medida que inteligência artificial, automação e novas tecnologias começaram a transformar funções em uma velocidade que nem sempre é acompanhada por universidades, cargos ou estruturas organizacionais.

Segundo o Future of Jobs Report 2025, do World Economic Forum, empregadores estimam que 39% das competências existentes dos trabalhadores serão transformadas ou ficarão desatualizadas entre 2025 e 2030. Quando as competências mudam mais rápido do que os cargos, contratar olhando apenas para o histórico profissional começa a ser insuficiente.

Talvez seja por isso que uma pergunta relativamente simples esteja ganhando espaço no recrutamento: em vez de perguntar apenas onde essa pessoa trabalhou, deveríamos perguntar o que ela realmente sabe fazer?

O que é skills-based hiring?

Skills-based hiring é uma abordagem de recrutamento que coloca as competências necessárias para desempenhar uma função no centro da avaliação de candidatos. Na definição utilizada pela OECD, o modelo procura combinar candidatos e vagas com base nas habilidades específicas necessárias para a posição, em vez de depender principalmente de qualificações formais ou cargos anteriores como indicadores dessas competências.

Imagine que uma empresa esteja procurando um Product Manager. Em um processo mais tradicional, alguns filtros poderiam ser graduação em determinada área, cinco anos de experiência, passagem anterior pelo cargo de Product Manager e experiência em empresas de determinado segmento. No skills-based hiring, a empresa começaria por outra pergunta: o que essa pessoa precisa ser capaz de fazer para ter sucesso nessa posição?

Talvez seja necessário saber priorizar um roadmap, interpretar dados, conduzir discovery, negociar prioridades com stakeholders, trabalhar com engenharia e transformar problemas de negócio em decisões de produto. A partir disso, o processo seletivo passa a buscar evidências dessas competências.

A diferença parece pequena, mas não é. Em um modelo, o histórico é utilizado como aproximação da capacidade. No outro, tentamos avaliar a capacidade diretamente.

Por que a contratação baseada em competências ganhou tanta relevância?

Skills-based hiring não surgiu agora. A discussão já vinha ganhando força há alguns anos, principalmente em setores nos quais formação acadêmica nem sempre representa adequadamente a capacidade de execução. Tecnologia é provavelmente o exemplo mais evidente: um desenvolvedor pode ter aprendido programação em uma universidade, em um bootcamp, em cursos online ou sozinho. A origem do conhecimento importa, mas não responde à pergunta principal: ele consegue desenvolver software com a qualidade necessária para aquela posição?

O crescimento da inteligência artificial tornou essa discussão ainda mais relevante. Funções estão mudando, novas competências aparecem, outras perdem importância e profissionais desenvolvem conhecimentos por caminhos cada vez menos lineares. A OECD aponta que abordagens skills-first estão ganhando espaço justamente em um contexto de dificuldades persistentes de contratação e desalinhamento entre as competências disponíveis e aquelas exigidas pelo mercado.

Isso cria um problema para empresas que ainda dependem excessivamente de filtros tradicionais. O profissional ideal para uma posição pode não ter o cargo anterior esperado, não ter estudado na universidade esperada ou não ter trabalhado no mesmo setor. Ainda assim, pode ter exatamente as competências necessárias para resolver o problema da empresa.

Currículo continua importante. Só não deveria responder sozinho

Skills-based hiring não significa que experiência, formação ou trajetória profissional deixaram de importar. Elas continuam oferecendo informação. O problema é transformá-las em critérios automáticos.

Uma graduação pode indicar exposição a determinados conhecimentos. Experiência em determinada empresa pode indicar familiaridade com certa escala ou complexidade. Anos de experiência podem indicar exposição repetida a determinados problemas. Mas nenhum desses elementos garante competência por si só.

Ter dez anos de experiência não significa necessariamente ter dez anos de evolução. Ter trabalhado em uma grande empresa não significa automaticamente conseguir produzir o mesmo resultado em uma startup. Ter ocupado um cargo de liderança também não significa necessariamente saber liderar bem.

O currículo conta onde aquela pessoa esteve. Um bom processo seletivo precisa descobrir o que ela fez, como fez, por que tomou determinadas decisões e quais resultados conseguiu produzir.

A mudança começa antes da entrevista

Existe um erro comum ao falar sobre contratação por competências: imaginar que basta acrescentar um teste ao processo seletivo. Não basta. Se a empresa continua descrevendo vagas a partir de diplomas, anos de experiência, cargos anteriores e uma lista extensa de tecnologias, mas acrescenta uma avaliação no final, ela não implementou realmente uma lógica skills-based.

A mudança precisa começar na definição da posição. Antes de abrir uma vaga, a empresa precisa identificar quais competências são necessárias para executar aquele trabalho. A OECD, em seu relatório A Skills-First Labour Market, publicado em 2026, descreve justamente esse processo: identificar funções prioritárias, definir as competências necessárias, adaptar o processo seletivo para avaliá-las e, posteriormente, incorporar essa lógica também ao desenvolvimento e à gestão de talentos.

Isso exige uma conversa mais profunda entre recrutamento e liderança. Em vez de perguntar apenas “qual perfil você quer?”, é preciso entender quais problemas essa pessoa terá de resolver, quais decisões precisará tomar, quais competências são indispensáveis desde o primeiro dia e quais conhecimentos podem ser desenvolvidos depois.

Essas perguntas melhoram não apenas a avaliação dos candidatos. Melhoram a própria definição da vaga.

O problema das descrições de vagas que procuram tudo ao mesmo tempo

Dez anos de experiência, cinco tecnologias obrigatórias, conhecimento de três mercados, experiência em liderança, inglês fluente, MBA desejável, passagem por empresa de grande porte, perfil empreendedor, excelente comunicação, pensamento estratégico e capacidade de ser hands-on.

Descrições assim ainda são comuns. O problema é que, quando todos esses elementos são tratados como obrigatórios, o mercado disponível diminui rapidamente. E existe uma possibilidade ainda pior: alguns desses requisitos talvez nem tenham relação direta com o desempenho esperado.

Esse é um dos benefícios de pensar por competências. A empresa é obrigada a distinguir o que realmente importa do que simplesmente seria conveniente encontrar. Para determinada posição, conhecer uma tecnologia específica pode ser indispensável. Para outra, um profissional com bons fundamentos consegue aprendê-la rapidamente. Talvez experiência no mesmo segmento seja crítica ou, dependendo do desafio, experiência resolvendo um problema semelhante em outro mercado seja mais relevante.

Skills-based hiring não significa reduzir o nível de exigência. Significa tentar ser mais preciso sobre onde devemos ser exigentes.

O diploma está deixando de importar?

Não necessariamente. Essa talvez seja uma das interpretações mais simplificadas sobre skills-based hiring. Existem profissões em que formação e certificações são indispensáveis, inclusive por questões técnicas, regulatórias ou de segurança. Mesmo fora delas, conhecimento acadêmico pode ser extremamente relevante. A mudança está em evitar exigir determinada credencial simplesmente porque ela sempre apareceu naquela descrição de vaga.

Os próprios dados mostram que a transição não acontece de maneira absoluta. Segundo o World Economic Forum, 81% das empresas pesquisadas esperam continuar utilizando experiência profissional como mecanismo de avaliação entre 2025 e 2030. Ao mesmo tempo, 48% esperam utilizar avaliações de competências, mostrando que as práticas de seleção estão se diversificando.

Ou seja: o currículo não desaparece. Ele deixa de ser a única evidência.

Como avaliar competências de verdade?

Essa provavelmente é a parte mais difícil. É relativamente simples retirar “graduação obrigatória” de uma descrição. Muito mais difícil é construir uma avaliação capaz de identificar competência de maneira consistente. E é aqui que processos seletivos podem cometer outro erro: substituir um proxy ruim por um teste ruim.

Um case de seis horas não necessariamente avalia melhor um candidato. Uma prova técnica excessivamente distante do trabalho real também não. E uma entrevista baseada apenas em “feeling” definitivamente não resolve o problema. A avaliação precisa estar conectada ao que aquela pessoa realmente fará.

Entrevistas estruturadas

Em vez de cada entrevistador conduzir uma conversa completamente diferente, entrevistas estruturadas definem previamente quais competências serão avaliadas e quais perguntas ajudarão a encontrar evidências delas. Se queremos avaliar resolução de problemas, por exemplo, podemos pedir que o candidato descreva uma situação concreta, quais alternativas considerou, quais informações utilizou e qual foi o resultado.

O objetivo não é encontrar a resposta mais bonita. É encontrar evidências.

Cases conectados ao trabalho real

Quando fizer sentido, um case pode ser útil, desde que represente problemas próximos daqueles que o profissional encontrará na função. Para um Product Manager, talvez seja mais relevante priorizar um conjunto de problemas e explicar os critérios utilizados do que produzir uma apresentação extensa. Para um desenvolvedor, discutir uma decisão arquitetural ou revisar um trecho de código pode revelar mais do que resolver um desafio algorítmico sem relação com o trabalho cotidiano.

Referências profissionais

Referências também podem ajudar a validar competências difíceis de observar em poucas horas de processo seletivo. Como essa pessoa reage quando um projeto dá errado? Como trabalha com stakeholders? Como recebe feedback? Qual era seu nível real de autonomia? Uma boa referência pode acrescentar contexto às evidências coletadas durante o processo, em vez de servir apenas para confirmar datas e cargos.

Skills-based hiring pode ampliar o mercado de talentos

Quando uma empresa reduz filtros que não são essenciais para o desempenho da função, pessoas que antes seriam descartadas automaticamente passam a entrar no processo. A OECD destaca que a abordagem pode ajudar organizações a acessar talentos subutilizados e considerar candidatos que desenvolveram competências por trajetórias não tradicionais.

Pense em uma pessoa que aprendeu programação de maneira autodidata, alguém que desenvolveu capacidade de liderança em uma empresa pequena e nunca teve “manager” no título ou um profissional que migrou de carreira e possui quatro anos de experiência diretamente relevante, mas não os “sete anos” definidos originalmente na descrição.

Talvez essas pessoas não passem pelos filtros tradicionais, mas podem passar por uma avaliação baseada naquilo que conseguem demonstrar. Isso amplia o pool sem necessariamente reduzir a qualidade. A exigência continua existindo. O que muda é a evidência aceita para demonstrar capacidade.

Existe uma diferença entre dizer que contrata por competências e realmente contratar

Retirar requisitos de diploma da descrição de uma vaga é relativamente simples. Mudar como decisões são tomadas é muito mais difícil.

Um estudo do Burning Glass Institute em parceria com o projeto Managing the Future of Work, da Harvard Business School, analisou justamente essa diferença entre discurso e prática. O levantamento encontrou um distanciamento entre empresas que anunciaram a retirada de requisitos de formação e mudanças efetivamente observadas nas contratações.

Isso acontece porque critérios antigos podem continuar presentes informalmente. A vaga deixa de exigir determinada universidade, mas o recrutador continua privilegiando candidatos que estudaram nela. O anúncio deixa de exigir determinado cargo anterior, mas o gestor continua procurando alguém com exatamente aquele título. O processo passa a falar de competências, mas a decisão final continua baseada em percepção subjetiva.

Skills-based hiring exige mais do que mudar a descrição da vaga. Exige mudar como evidências são coletadas e como decisões são tomadas.

Inteligência artificial torna essa mudança ainda mais urgente

A IA adiciona uma nova camada a essa discussão. Se ferramentas conseguem escrever textos, gerar código, analisar dados e estruturar apresentações, algumas tarefas que antes funcionavam como demonstração de competência começam a perder poder de diferenciação. Isso não significa que essas competências deixaram de existir. Significa que precisamos avaliar níveis mais profundos.

Um desenvolvedor não deveria ser avaliado apenas pela velocidade com que escreve código, mas pela capacidade de entender problemas, revisar soluções, identificar riscos e tomar decisões técnicas. Um profissional de marketing não deveria ser avaliado apenas pela capacidade de produzir um texto, mas pela compreensão de público, posicionamento, distribuição e resultado. Um analista não deveria ser avaliado apenas pela capacidade de produzir uma planilha, mas pela qualidade das perguntas que faz aos dados.

Quanto melhores ficam as ferramentas, mais importante se torna entender como a pessoa pensa.

Contratar por competências não elimina o julgamento humano

Também seria equivocado transformar skills-based hiring em uma tentativa de tornar contratação completamente objetiva. Pessoas são mais complexas do que uma matriz de competências. Contexto, cultura, motivação e potencial continuam importando.

O objetivo não deveria ser retirar julgamento do recrutamento, mas melhorar a qualidade desse julgamento. Existe uma diferença grande entre dizer “gostei dessa pessoa” e dizer “essa pessoa demonstrou as três competências que definimos como críticas para a posição, e estas são as evidências”.

A segunda decisão continua sendo humana. Mas é muito mais fácil de discutir, comparar e revisar.

Do skills-based hiring para uma organização baseada em competências

Se uma empresa começa a contratar olhando para competências, eventualmente surge outra pergunta: por que utilizar essa lógica apenas para quem está entrando? Talvez já existam pessoas dentro da organização com competências necessárias para uma nova posição. Talvez um profissional possa migrar para outra área. Talvez determinado gap possa ser resolvido por desenvolvimento, e não por uma nova contratação.

É por isso que a discussão está evoluindo de skills-based hiring para skills-first organizations. A OECD destaca que a lógica baseada em competências pode avançar para gestão de desempenho, desenvolvimento, mobilidade e progressão de carreira.

Isso muda a conversa de recrutamento. Em vez de pensar apenas “quem precisamos contratar?”, a empresa começa a perguntar quais competências precisa ter, quais já possui, quais pode desenvolver e quais realmente precisa buscar no mercado.

É uma discussão muito mais estratégica.

O currículo mostra a trajetória. A contratação precisa descobrir a capacidade.

Skills-based hiring não significa que diplomas deixaram de ter valor, que experiência deixou de importar ou que empresas deveriam contratar sem critérios. Significa reconhecer que currículo, formação e cargo são sinais, não a competência em si.

Em um mercado no qual funções mudam rapidamente e novas tecnologias transformam o trabalho antes mesmo que os títulos dos cargos consigam acompanhar, depender apenas desses sinais se torna cada vez menos suficiente. A empresa que consegue definir claramente quais competências precisa também consegue escrever vagas melhores, ampliar seu mercado de talentos e estruturar processos seletivos mais consistentes.

Mas existe uma consequência ainda mais importante: ela começa a contratar pessoas pelo que conseguem fazer e pelo que demonstram capacidade de aprender.

No fim, talvez essa seja a principal mudança proposta pelo skills-based hiring: o currículo continua contando a história de onde alguém esteve. Um bom processo seletivo precisa descobrir até onde essa pessoa consegue chegar.

Taina Besvoglio
Escrito por Taina Besvoglio Sócia da e-volve.one

Taina Besvoglio é sócia da e-volve.one e lidera a vertical e-vo.tech, dedicada ao recrutamento especializado em tecnologia. Psicóloga formada pela UNESP, atua há mais de 5 anos na área de recrutamento, com experiência na construção de times estratégicos para startups, scale-ups e empresas em expansão. Ao longo de sua trajetória, conduziu processos seletivos end-to-end para diferentes níveis e perfis, desenvolvendo uma visão consultiva sobre atração de talentos e conectando as necessidades do negócio às pessoas certas. Sua atuação combina conhecimento em recrutamento, liderança e estratégia, com uma abordagem próxima às empresas e às lideranças na construção de equipes de alta performance. Na e-volve.one, além de liderar a operação de recrutamento tech, atua na definição de estratégias de talentos e no desenvolvimento de soluções para aproximar empresas e profissionais de tecnologia.

Clique para Ligar
Fale por WhatsApp
Fale por WhatsApp