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Empresas não precisam aprender tudo sozinhas: o papel das consultorias estratégicas no crescimento

Empresas não precisam aprender tudo sozinhas: o papel das consultorias estratégicas no crescimento

Empresas não precisam aprender tudo sozinhas: o papel das consultorias estratégicas no crescimento

Existe uma espécie de orgulho silencioso no mundo empresarial em resolver tudo dentro de casa. O empreendedor conhece seu negócio melhor do que qualquer pessoa, o executivo possui uma equipe competente, os problemas são discutidos internamente e, quando alguma coisa nova aparece, a organização aprende enquanto executa. Durante boa parte da trajetória de uma empresa, esse comportamento não apenas funciona como também ajuda a construir uma cultura de autonomia e capacidade de realização.

O problema começa quando crescer aumenta a complexidade mais rapidamente do que aumenta o repertório da organização.

Uma empresa que faturava R$ 20 milhões não é simplesmente uma versão menor da mesma companhia faturando R$ 200 milhões. Em algum momento desse percurso, aquilo que funcionava começa a cobrar seu preço. A estrutura muda, as decisões ficam mais caras, surgem novos níveis de liderança, governança ganha importância, sistemas deixam de suportar improvisação e áreas que antes podiam funcionar pela proximidade entre algumas pessoas precisam desenvolver processos capazes de sobreviver à escala.

É nesse momento que muitas empresas cometem um erro compreensível: tentam aprender cada uma dessas coisas pela primeira vez enquanto continuam crescendo.

Aprender fazendo é uma das maiores virtudes do empreendedorismo. Aprender tudo errando, no entanto, pode ser uma forma extraordinariamente cara de adquirir conhecimento que já existe.

É justamente nesse espaço que uma boa consultoria estratégica produz valor.

Não porque o consultor conheça a empresa melhor do que quem a construiu, nem porque possua uma resposta pronta para todos os problemas. Uma boa consultoria traz algo diferente: repertório acumulado de situações que aquela organização talvez esteja enfrentando pela primeira vez, mas que alguém especializado já viu dezenas de vezes.

Essa diferença pode representar meses ou anos.

O problema novo para a sua empresa talvez seja antigo para um especialista

Imagine uma companhia que cresceu rapidamente e chegou ao momento de estruturar sua primeira camada executiva profissional. Para o fundador, aquela decisão é inédita. Ele precisará definir que posições criar, que responsabilidades deixarão de estar concentradas nele, como estabelecer alçadas, quais profissionais contratar e até que ponto está realmente disposto a entregar poder.

Para alguém especializado em desenho organizacional e recrutamento executivo, esse filme já passou outras vezes.

Os personagens mudam, naturalmente. A cultura é diferente, o setor possui particularidades e nenhuma solução deveria ser simplesmente copiada de outra empresa. Ainda assim, determinados padrões aparecem. O especialista conhece erros recorrentes, consegue antecipar consequências e possui referências que ajudam a organização a não começar a discussão do zero.

O mesmo acontece quando uma empresa precisa profissionalizar vendas, implementar governança, rever sua estrutura financeira, entrar em um novo mercado, reorganizar tecnologia, realizar uma aquisição ou transformar sua maneira de contratar.

Internamente, existe conhecimento profundo sobre o negócio. Externamente, pode existir conhecimento profundo sobre o problema.

As melhores decisões normalmente aparecem quando essas duas coisas conseguem trabalhar juntas.

Talvez seja justamente por isso que eu não goste muito da imagem do consultor como alguém que chega com uma apresentação sofisticada para explicar ao empresário como sua empresa funciona. Se esse for o trabalho, provavelmente o empresário está pagando caro para ouvir aquilo que já sabe.

O valor está em trazer aquilo que ele ainda não sabe, aquilo que não consegue enxergar por estar envolvido demais na operação ou aquilo que levaria tempo demais para aprender sozinho.

Crescimento muda a natureza dos problemas

Empresas pequenas conseguem resolver uma quantidade impressionante de coisas pela proximidade. O fundador conhece praticamente todo mundo, decisões são tomadas rapidamente, informações circulam informalmente e um bom profissional pode assumir responsabilidades muito além da descrição de seu cargo.

Quando a empresa cresce, essa elasticidade começa a desaparecer.

O fundador já não consegue participar de todas as decisões. A comunicação deixa de acontecer naturalmente. Contratações erradas passam a produzir impacto sobre equipes inteiras. Processos frágeis que suportavam cem clientes talvez não suportem dez mil. Uma decisão comercial ruim pode comprometer muito mais caixa, enquanto uma escolha equivocada de liderança pode afetar dezenas ou centenas de pessoas.

Isso significa que o crescimento não aumenta apenas a receita. Ele aumenta o custo potencial do erro.

Curiosamente, algumas empresas respondem a essa nova complexidade utilizando exatamente a mesma estrutura de decisão que funcionava quando eram muito menores. A organização muda de tamanho, mas continua tentando resolver tudo com o mesmo repertório.

É nesse ponto que apoio especializado deixa de ser luxo e começa a funcionar como instrumento de redução de risco.

Não faz sentido montar internamente uma equipe permanente de especialistas para cada problema que uma organização poderá enfrentar ao longo de sua história. Em determinados momentos, a empresa precisará de uma competência intensamente durante seis meses e talvez não precise dela novamente durante anos.

Comprar acesso temporário a conhecimento especializado pode ser muito mais racional do que tentar possuir todo conhecimento necessário dentro da própria estrutura.

Uma boa consultoria não substitui a liderança

Existe, porém, um cuidado importante. Consultoria estratégica ruim pode produzir exatamente o contrário daquilo que estou defendendo.

Há projetos que geram apresentações impecáveis, benchmarks internacionais, matrizes sofisticadas e recomendações que nunca sobrevivem ao primeiro contato com a realidade. O diagnóstico termina, os consultores saem e algumas semanas depois o arquivo repousa em uma pasta que ninguém mais abre.

Isso não é estratégia. É produção de PowerPoint.

Também existe o extremo no qual a liderança terceiriza intelectualmente a própria decisão. O consultor analisa, recomenda e praticamente decide, enquanto os executivos assumem uma posição de espectadores. Esse modelo pode até funcionar enquanto o projeto está acontecendo, mas dificilmente constrói capacidade dentro da empresa.

Consultoria deveria ampliar a qualidade da liderança, não substituí-la.

A decisão continua pertencendo ao executivo. O risco continua pertencendo à empresa. O especialista ajuda a aumentar a quantidade e a qualidade das informações disponíveis, confronta premissas, apresenta alternativas e traz experiências que talvez não existam dentro da organização.

Quando esse relacionamento funciona, a empresa não recebe apenas uma recomendação. Ela aprende a tomar uma decisão melhor.

E essa diferença importa muito.

O olhar externo também possui uma independência que a organização nem sempre consegue produzir

Existe outra vantagem pouco discutida do apoio externo: quem está dentro de uma empresa também está dentro de suas relações de poder.

Um diretor pode perceber que determinada estrutura não funciona e ainda assim ter dificuldade para questioná-la porque foi criada pelo CEO. Uma equipe pode saber que uma meta é irrealista, mas continuar tratando o problema como dificuldade de execução. Um executivo recém-contratado talvez identifique rapidamente uma falha e prefira esperar alguns meses antes de confrontar uma decisão histórica da companhia.

Organizações criam consensos. Alguns são saudáveis; outros sobrevivem simplesmente porque ninguém mais se lembra de quando começaram.

Um especialista externo não está completamente livre de vieses, evidentemente, mas possui uma vantagem importante: não precisa construir carreira dentro daquela hierarquia.

Isso permite fazer perguntas que internamente podem ser desconfortáveis.

Em trabalhos de conselho, recrutamento e consultoria, muitas vezes percebo que a contribuição mais importante não é entregar uma resposta brilhante. É conseguir formular uma pergunta que obriga a organização a reconsiderar uma premissa que todos haviam aceitado como verdadeira.

A independência também ajuda em decisões emocionalmente difíceis. Fundadores criam vínculos com pessoas, produtos e estruturas. Executivos defendem projetos nos quais investiram anos. Áreas protegem orçamento e influência. Tudo isso é absolutamente humano e, justamente por isso, pode interferir na qualidade das decisões.

Um bom especialista não elimina esses fatores. Ajuda a colocá-los sobre a mesa.

Repertório é uma forma de comprar velocidade

Talvez essa seja a maneira mais objetiva de explicar o valor econômico de uma consultoria estratégica.

Empresas contratam especialistas porque tempo também custa dinheiro.

Se uma organização precisa estruturar uma nova área e sua equipe levar nove meses para descobrir o modelo adequado por tentativa e erro, existe um custo nesse aprendizado. Se contrata as pessoas erradas durante o percurso, o custo aumenta. Se um concorrente consegue executar a mesma transformação em quatro meses porque já possui aquele conhecimento, existe ainda um custo de oportunidade.

O especialista não elimina o período de aprendizagem, mas pode encurtá-lo dramaticamente.

Essa lógica é absolutamente natural em outras áreas. Ninguém considera sinal de incompetência contratar um advogado especializado para uma transação complexa ou um banco de investimento para estruturar determinada operação. Reconhecemos que existem decisões suficientemente específicas e importantes para justificar conhecimento especializado.

Na gestão empresarial, às vezes agimos de maneira diferente. Acreditamos que a equipe deveria saber resolver qualquer problema porque conhece profundamente o negócio.

Conhecer o negócio e conhecer aquele problema são coisas diferentes.

Uma empresa pode ser extraordinária naquilo que faz e ainda não saber como estruturar seu primeiro conselho, desenhar um plano de remuneração executiva, contratar um CFO, reorganizar uma operação comercial ou construir uma arquitetura de pessoas para dobrar de tamanho.

Não existe demérito nisso.

O demérito talvez esteja em gastar dois anos e uma quantidade considerável de dinheiro para aprender sozinho aquilo que poderia ter sido acelerado com ajuda adequada.

O especialista certo também precisa ser escolhido com rigor

Nem toda consultoria produz esse tipo de valor, e talvez essa seja a razão pela qual tantos empresários desenvolveram resistência ao setor.

O mercado também está cheio de especialistas em problemas que nunca precisaram resolver.

Uma boa apresentação comercial não substitui experiência. Uma metodologia com nome bonito não prova capacidade de execução. Um benchmark internacional pode ser intelectualmente interessante e completamente inútil diante da realidade específica de uma empresa brasileira.

Antes de contratar uma consultoria, eu gostaria de saber quais problemas semelhantes aquela equipe já enfrentou, que resultados produziu, quem efetivamente trabalhará no projeto e quanto da recomendação será construída para aquela realidade em vez de simplesmente adaptada de um modelo pronto.

Também me interessa saber se o consultor está disposto a discordar.

Se contratamos alguém apenas para confirmar aquilo que já decidimos, estamos comprando validação, não aconselhamento. Em determinadas situações, pode até ser confortável, mas dificilmente é o melhor uso de conhecimento externo.

Os melhores especialistas que conheci possuem uma combinação que não é tão comum: experiência suficiente para reconhecer padrões e humildade suficiente para entender que aquela empresa pode ser diferente de todas as anteriores.

É esse equilíbrio que transforma repertório em valor.

Empresas maduras sabem o que precisam saber e também reconhecem aquilo que ainda não sabem

Durante muito tempo, a imagem do grande executivo esteve associada à pessoa que possuía respostas. Quanto mais experiência acumulava, mais respostas deveria ter.

Tenho uma visão um pouco diferente.

Conforme uma empresa cresce, aumenta a quantidade de assuntos sobre os quais nenhuma pessoa consegue possuir profundidade suficiente. Tecnologia, finanças, pessoas, regulação, dados, inteligência artificial, estratégia, operações, M&A e inúmeros outros temas se tornaram sofisticados demais para que um único executivo consiga dominar todos eles.

A competência passa, então, por saber onde a organização possui conhecimento suficiente, onde precisa desenvolver capacidade e onde faz mais sentido trazer alguém que passou anos estudando e resolvendo exatamente aquele tipo de problema.

Isso não diminui o papel do líder. Torna sua responsabilidade mais sofisticada.

Uma das funções da liderança é montar o melhor conjunto possível de inteligência ao redor das decisões importantes. Às vezes essa inteligência estará dentro da empresa. Em outras, estará no conselho. E haverá momentos em que estará em uma consultoria, em um especialista ou em alguém que consegue trazer em poucas semanas o repertório que a organização levaria anos para construir.

Empresas não crescem porque contratam consultorias. Crescem porque tomam boas decisões, executam bem e conseguem aprender mais rápido do que a complexidade aumenta.

Uma boa consultoria estratégica entra exatamente nesse intervalo. Ela não conhece sua empresa melhor do que você e não deveria pretender conhecê-la. O que ela pode conhecer muito melhor é um problema que você está enfrentando pela primeira vez.

E, quando a decisão é suficientemente importante, talvez não exista nenhuma virtude especial em aprender tudo sozinho.

Diego Rondon
Escrito por Diego Rondon CEO e Cofundador da e-volve.one

Diego Rondon, que já atuou como uma das lideranças-chave de RH na 99, primeiro unicórnio brasileiro, apoiando ainda mais de 10 unicórnios nacionais em processos de gestão de talentos, é conselheiro de empresas com foco em RH, headhunter especializado na formação de equipes de alta performance e referência em lideranças para projetos e processos de excelência. CEO e cofundador da e-volve.one – consultoria especializada em estratégia de crescimento com foco em RH por meio de soluções que usam tecnologia para desenvolvimento das melhores práticas da área de recursos humanos, atua há mais de 20 anos em posições de liderança estratégica, com foco em gestão empresarial, governança corporativa e reestruturação de negócios. É investidor e empreendedor, tendo liderado transformações relevantes em conselhos nos últimos seis anos, incluindo um processo de turnaround financeiro com eliminação de passivos, renegociação de contratos e recuperação da sustentabilidade. Desde 2023, é membro independente do conselho de grandes fintechs, contribuindo diretamente para a evolução de um modelo de gestão mais ágil e orientado a resultados. Com formação para conselheiros pela FDC - Fundação Dom Cabral - Formação para Conselheiro, possui sólida expertise em planejamento tributário, estruturação de conselhos e negociação com investidores. Também é cofundador da Chiefs.Group, HRtech de Open Talent.

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