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Uso responsável da IA nas empresas e preparo das equipes
Uso responsável da IA nas empresas e preparo das equipes
Diego Rondon
Fundador da e-volve.one, headhunter e conselheiro
Uma pessoa encontra uma ferramenta de inteligência artificial que pode ajudá-la a preparar uma apresentação. Para ganhar tempo, insere informações de um cliente, recebe um texto convincente e leva o material para a reunião. Sem orientação da empresa, ela terá de decidir sozinha quais dados podem entrar ali e quanto pode confiar na resposta.
Esse exemplo mostra por que defendo que o uso responsável da IA nas empresas comece pela preparação das equipes. Ao incentivar uma nova forma de trabalhar, a organização assume a responsabilidade de oferecer condições para que ela seja bem utilizada. Isso envolve acesso adequado, treinamento e critérios que façam sentido na rotina.
Proibir tudo pode deixar oportunidades de aprendizado pelo caminho e estimular usos que a liderança desconhece. Liberar sem orientação, por outro lado, transfere ao funcionário decisões sobre riscos que ele talvez não tenha condições de avaliar. Há espaço para permitir a experimentação com limites claros e apoio de quem entende do trabalho.
Comece pelas tarefas que a equipe precisa realizar
Antes de escolher uma plataforma, vale mapear onde a IA pode ajudar. Preparar uma primeira versão de um comunicado com informações públicas é diferente de analisar documentos confidenciais ou recomendar quem deve avançar em um processo seletivo. Os dados envolvidos e as consequências de um erro mudam bastante.
Minha recomendação é começar por atividades delimitadas, com resultado verificável e possibilidade de corrigir falhas antes que afetem alguém. A equipe pode testar a organização de ideias, a revisão de um texto ou a elaboração de um roteiro, sempre com informações autorizadas. Usos que influenciem contratação, remuneração ou avaliação de desempenho pedem uma análise mais cuidadosa.
A governança deve acompanhar essas diferenças. O AI Risk Management Framework do NIST oferece uma referência voluntária para organizar responsabilidades e administrar riscos conforme o contexto. Na empresa, isso pode se traduzir em regras simples para tarefas de menor impacto e uma avaliação específica para usos mais sensíveis.
Ofereça treinamento em IA conectado a cada função
Ensinar a escrever comandos é uma parte da formação. A pessoa também precisa reconhecer quando uma resposta não merece confiança, quais informações não pode compartilhar e em que momento deve procurar ajuda. A recomendação da UNESCO sobre ética da inteligência artificial relaciona a formação em IA à compreensão de seus impactos e ao respeito aos direitos das pessoas.
O treinamento fica mais útil quando trabalha com situações próximas da função. No RH, a discussão pode envolver critérios de seleção e vieses. No comercial, cuidados com propostas, condições negociadas e dados de clientes. Na liderança, a atenção recai sobre decisões, cobrança de resultados e responsabilidade pelo uso da tecnologia.
Prefiro uma formação com exercícios acompanhados, exemplos fictícios e discussão dos erros a uma apresentação que termina sem oportunidade de praticar. Reserve tempo de trabalho para aprender e atualize os exemplos conforme surgirem dúvidas. Quem tem menos familiaridade com tecnologia precisa conseguir participar, sem constrangimento por fazer perguntas básicas.
Defina ferramentas aprovadas e proteja as informações
A empresa precisa explicar quais ferramentas estão aprovadas e para quais finalidades. A avaliação deve considerar as condições do fornecedor, retenção das informações, uso dos conteúdos para treinamento, controles de acesso e configurações disponíveis. Essas características variam entre produtos, planos e contratos; pagar por uma licença, isoladamente, não resolve a análise.
Quando há tratamento de dados pessoais, devem ser avaliadas as obrigações aplicáveis da LGPD, incluindo finalidade, necessidade, não discriminação e segurança. Informações comerciais confidenciais também exigem cuidado, conforme os compromissos e as regras da organização. Uma orientação compreensível precisa trazer exemplos de documentos e dados que não podem ser inseridos em uma ferramenta sem avaliação prévia.
Para os exercícios iniciais, dados fictícios costumam evitar exposição desnecessária. Retirar o nome de uma pessoa não garante anonimização se outros elementos permitirem identificá-la. A equipe precisa saber a quem recorrer quando o material necessário para uma tarefa estiver fora das condições autorizadas.
Dê conteúdo real à revisão humana
Um texto bem escrito pode conter números errados, referências inexistentes ou conclusões que não se sustentam. O perfil de IA generativa do NIST trata desse risco e recomenda verificar fontes e citações. Por isso, a revisão precisa fazer parte do tempo previsto para a tarefa, com alguém capaz de avaliar o conteúdo.
O responsável deve conferir as informações relevantes nas fontes, revisar cálculos e examinar o que ficou de fora. Em atividades que afetem pessoas, também deve procurar critérios inadequados e possíveis efeitos discriminatórios. Uma classificação de candidatos, por exemplo, pode parecer objetiva e ainda assim reproduzir preferências injustificadas presentes nos dados ou nas instruções.
Os princípios da OCDE reforçam a importância da supervisão, da transparência e da possibilidade de contestar resultados. Na prática, quem revisa precisa ter autoridade para discordar, interromper o uso e pedir outra análise. Aprovar automaticamente o que a ferramenta produziu deixa a decisão sem uma avaliação efetiva.
Organize responsabilidades e um canal seguro para dúvidas
Uma política de uso de IA precisa ser encontrada e entendida por quem vai segui-la. Ela deve indicar usos permitidos, restrições, dados autorizados e responsáveis pela aprovação de exceções. RH, tecnologia, segurança e jurídico podem contribuir conforme a estrutura da empresa, com alguém claramente responsável por coordenar as decisões.
Também é importante oferecer um canal para dúvidas e relatos de incidentes, com orientação sobre o que comunicar e a quem. Se uma pessoa perceber que expôs uma informação indevida, precisa conseguir avisar rapidamente. O receio de uma reação desproporcional pode atrasar esse relato e dificultar a resposta. Cabe à liderança incentivar a comunicação de boa-fé e tratar cada situação com critério.
Essas medidas são recomendações de gestão e devem ser adaptadas ao contexto. As exigências legais e contratuais precisam ser avaliadas para cada atividade, com apoio especializado quando necessário.
Acompanhe o resultado antes de ampliar o uso
Depois dos primeiros testes, compare o trabalho realizado com e sem o apoio da IA. Considere o tempo total, incluindo revisão, a qualidade da entrega e o retrabalho. Ouça a equipe sobre dificuldades e registre erros relevantes. Um rascunho produzido rapidamente pode exigir tanta correção que o benefício esperado desapareça.
A expansão deve se apoiar nesse aprendizado, com ajustes na formação e nas regras. A liderança também precisa evitar que a expectativa de produtividade elimine o tempo necessário para aprender e conferir. Quando a cobrança ignora essas etapas, o incentivo ao uso responsável perde credibilidade.
O compromisso da empresa é preparar as pessoas para usar a IA com discernimento e oferecer apoio quando surgirem dúvidas. Esse trabalho começa com um diagnóstico das atividades e dos riscos, avança com formação e precisa continuar durante a implantação. Para seguir essa conversa sobre pessoas, liderança e transformação, conheça a e-volve.one.
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