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Como reduzir entrevistas desnecessárias no recrutamento Tech

Como reduzir entrevistas desnecessárias no recrutamento Tech

Como reduzir entrevistas desnecessárias no recrutamento Tech

Existe uma ideia bastante comum em recrutamento: quanto mais candidatos entrevistamos, maior a chance de encontrar alguém bom. Em alguns contextos, isso até pode acontecer. Mas, em operações de recrutamento Tech de maior volume, entrevistar demais costuma ser um sinal de que o processo está descobrindo tarde aquilo que poderia ter descoberto antes.

Se dezenas de candidatos chegam à primeira entrevista e poucos avançam, talvez o problema não esteja na entrevista. Pode estar na triagem, na definição dos critérios, na qualidade do alinhamento da vaga ou simplesmente na falta de informação antes da conversa humana.

Por isso, reduzir entrevistas não deveria significar tornar o processo menos cuidadoso. Pelo contrário. Deveria significar melhorar a qualidade das decisões anteriores à entrevista para que o tempo humano seja utilizado onde realmente agrega valor.

A entrevista não deveria ser usada para descobrir o básico

Ainda é comum encontrar processos em que os primeiros 20 ou 30 minutos de conversa são usados para confirmar informações relativamente objetivas: pretensão salarial, disponibilidade, localização, modelo de contratação, nível de inglês ou contato com determinada tecnologia.

Essas informações são importantes, mas poucas delas exigem uma entrevista para serem coletadas. Se existe uma incompatibilidade clara de faixa salarial, modelo de trabalho ou disponibilidade, descobrir isso apenas depois de colocar candidato e recrutador em uma conversa representa desperdício para os dois lados.

Boa parte dessas informações pode ser coletada e organizada antes, por meio de formulários inteligentes, perguntas de qualificação, ATS, automações ou agentes de IA. Isso não diminui o valor da entrevista. Faz exatamente o contrário: permite que a entrevista seja usada para aquilo que realmente exige uma conversa.

O problema pode começar no alinhamento da vaga

Antes de tentar reduzir o número de entrevistas, vale entender por que tantos candidatos estão chegando até elas. Muitas vezes, a origem do problema está na própria definição da posição.

Quando a vaga é descrita apenas como uma combinação de stack, senioridade e anos de experiência, os critérios de triagem ficam amplos ou superficiais. O resultado é uma quantidade grande de candidatos aparentemente aderentes, mas que deixam de fazer sentido assim que alguém aprofunda a conversa.

Por exemplo, “cinco anos de Java” pode colocar no mesmo grupo profissionais com experiências completamente diferentes. Um pode ter trabalhado em sistemas críticos de alta disponibilidade, outro pode ter utilizado a linguagem em aplicações muito menos complexas. Ambos atendem ao filtro, mas talvez apenas um tenha o contexto necessário para o desafio.

Quanto melhor o alinhamento, mais fácil fica separar requisitos realmente importantes de características apenas desejáveis e, consequentemente, melhorar quem chega à entrevista.

Triagem deveria procurar evidências, não apenas palavras

Uma das maiores oportunidades para reduzir entrevistas desnecessárias está na própria triagem. Filtros tradicionais costumam procurar cargos, palavras-chave, tecnologias e tempo de experiência. Esses sinais ajudam, mas dificilmente são suficientes para compreender a aderência real de um candidato.

Uma triagem mais sofisticada tenta buscar evidências. Não apenas se a pessoa conhece determinada tecnologia, mas em qual contexto a utilizou. Não apenas se foi líder, mas qual era o tamanho e a responsabilidade do time. Não apenas se possui determinado cargo no currículo, mas que tipo de problema resolveu naquela posição.

É justamente nesse ponto que inteligência artificial pode aumentar muito a capacidade de uma operação. Não porque ela simplesmente “seleciona currículos”, mas porque pode ajudar a organizar grande quantidade de informação e identificar evidências relacionadas aos critérios previamente definidos.

Se a triagem melhora, a entrevista deixa de ser a primeira etapa em que alguém realmente tenta compreender o candidato.

Qualificação deveria acontecer antes da entrevista

Existe uma camada intermediária entre currículo e entrevista que muitas operações pouco exploram: a qualificação.

Depois de identificar candidatos potencialmente interessantes, é possível aprofundar algumas informações antes de utilizar tempo de um recrutador. Perguntas estruturadas podem investigar disponibilidade, remuneração, idioma, experiências específicas ou contexto de determinados projetos. Dependendo da posição, também é possível pedir uma breve descrição sobre uma decisão técnica, arquitetura utilizada ou desafio enfrentado.

O objetivo não é criar um interrogatório automatizado. É conseguir informação suficiente para responder uma pergunta simples: faz sentido investir uma conversa mais aprofundada com essa pessoa?

Quando essa etapa funciona bem, a proporção entre entrevistas realizadas e candidatos realmente competitivos tende a melhorar.

Entrevista por contratação é uma métrica importante

Uma métrica que considero particularmente útil é o número de entrevistas necessárias para gerar uma contratação.

Não existe um número universalmente correto, porque posições e mercados são diferentes. Mas acompanhar sua evolução pode revelar bastante sobre a qualidade do funil.

Se anteriormente eram necessárias dez entrevistas para uma contratação e agora são necessárias vinte e cinco, alguma coisa mudou. Talvez o sourcing esteja trazendo candidatos menos aderentes. Talvez a triagem esteja permissiva. Talvez o perfil da vaga esteja mal definido. Talvez recrutador e gestor estejam utilizando critérios diferentes.

O objetivo da métrica não é simplesmente reduzir o número. É utilizar a relação entre entrevistas e contratações como sinal de qualidade das etapas anteriores.

Conversão entre etapas ajuda a localizar o problema

A mesma lógica vale para outras taxas de conversão. Imagine que 200 candidatos são classificados como aderentes, 100 são entrevistados e apenas 10 avançam para uma avaliação técnica.

Se 90% das pessoas entrevistadas são eliminadas, existe uma pergunta óbvia: o que estamos descobrindo na entrevista que poderia ter sido descoberto antes?

Talvez seja conhecimento técnico insuficiente. Talvez expectativa salarial. Talvez senioridade. Talvez experiência em determinado contexto. Quando identificamos esse padrão, podemos levar parte dessa avaliação para uma etapa anterior.

O funil vai aprendendo. Com o tempo, boas operações de recrutamento deveriam conseguir antecipar informações e reduzir decisões tardias.

Nem tudo deveria virar um filtro automático

Existe, porém, um risco no movimento contrário. Na tentativa de reduzir entrevistas, a empresa pode criar filtros demais e eliminar candidatos interessantes cedo demais.

Quanto mais rígido o processo inicial, maior a chance de perder perfis não óbvios. Um profissional pode não ter exatamente a stack desejada, mas possuir repertório técnico suficiente para aprender rapidamente. Pode não ter o cargo esperado no currículo, mas já ter exercido responsabilidades equivalentes. Pode ter uma trajetória pouco convencional que não funciona bem em filtros tradicionais.

Por isso, reduzir entrevistas não significa simplesmente aumentar barreiras. Significa melhorar a qualidade dos critérios e saber diferenciar aquilo que realmente é eliminatório daquilo que merece investigação.

A entrevista precisa ter um propósito claro

Quando um candidato finalmente chega à entrevista, deveria existir clareza sobre aquilo que ainda precisamos descobrir.

Se o processo anterior já confirmou critérios básicos, experiência relevante e informações objetivas, a conversa pode aprofundar aspectos como autonomia, raciocínio, decisões tomadas, motivação, comunicação, capacidade de lidar com determinados desafios e contexto profissional.

Isso torna a entrevista mais interessante inclusive para o candidato. Em vez de repetir informações que já estão no currículo, a conversa passa a explorar aquilo que dificilmente seria compreendido apenas por documentos ou sistemas.

Uma boa entrevista não deveria ser uma revisão oral do LinkedIn. Deveria produzir informação nova.

Gestores também precisam entrar no momento certo

Outro gargalo comum acontece quando gestores são envolvidos cedo demais. Tempo de liderança técnica é caro. Colocar um Engineering Manager, Head ou CTO para conversar com candidatos que ainda não passaram por uma qualificação consistente cria um custo escondido enorme dentro do processo.

O mesmo princípio vale aqui: quanto mais cara é uma etapa, mais tarde ela deveria aparecer no funil. O gestor deveria receber candidatos sobre os quais já exista uma quantidade razoável de evidências de aderência.

Isso não apenas reduz tempo desperdiçado, mas também melhora a percepção da liderança sobre a qualidade de Talent Acquisition.

Menos entrevistas podem significar mais qualidade

À primeira vista, reduzir entrevistas pode parecer uma discussão sobre eficiência. E em parte é. Menos entrevistas significam menor consumo de tempo de recrutadores, candidatos e gestores.

Mas existe também um componente de eficácia. Quando o processo consegue identificar melhor quem realmente merece chegar à etapa humana, recrutadores conseguem dedicar mais atenção a essas pessoas. As conversas podem ser mais profundas, os pareceres melhores e o relacionamento com o candidato mais consistente.

O objetivo não é entrevistar o mínimo possível. É evitar entrevistas que não deveriam ter acontecido.

IA pode ajudar a aumentar a densidade do funil

Uma das maneiras mais interessantes de pensar o uso de IA em recrutamento é pela ideia de densidade.

Se temos 100 candidatos e entrevistamos 50 para encontrar cinco realmente relevantes, a densidade da etapa é relativamente baixa. Se conseguimos utilizar critérios melhores, análise automatizada e qualificação para entrevistar 15 pessoas e ainda encontrar os mesmos cinco bons candidatos, aumentamos muito a qualidade da etapa humana.

Esse deveria ser um dos objetivos da tecnologia. Não apenas processar mais pessoas, mas aumentar a proporção de candidatos relevantes em cada etapa do funil.

Conclusão

Entrevistas são uma das partes mais valiosas de um processo seletivo porque permitem contexto, aprofundamento e relacionamento. Justamente por isso, não deveriam ser desperdiçadas.

Quanto melhor o alinhamento da posição, mais claros os critérios, mais inteligente a triagem e mais estruturada a qualificação, menor a necessidade de utilizar entrevistas para descobrir incompatibilidades básicas.

Em recrutamento Tech de alto volume, isso se torna ainda mais importante. Escala não deveria significar colocar cada vez mais pessoas em conversas. Deveria significar construir um processo capaz de decidir melhor quem realmente merece chegar até elas.

Na e-volve.one, pensamos tecnologia e inteligência artificial justamente sob essa perspectiva: automatizar e estruturar aquilo que pode acontecer antes para aumentar a qualidade da interação humana quando ela realmente acontece.

“Quantas das entrevistas que ele fez realmente precisavam ter acontecido?”
Airton Gaudenci
Escrito por Airton Gaudenci Cofundador da e-volve.one

Airton Gaudenci é cofundador da e-volve.one e atua há mais de 15 anos na interseção entre tecnologia, gestão, pessoas e negócios. Ao longo da carreira, construiu experiência em empresas de tecnologia e startups, atuando em posições de liderança e apoiando organizações em momentos de crescimento, estruturação e transformação. Com background originalmente técnico e uma trajetória que passou por recrutamento, Recursos Humanos e gestão executiva, Airton participou da construção e desenvolvimento de times em algumas das principais empresas do ecossistema brasileiro de tecnologia, além de atuar como advisor de startups. Desde 2017, dedica-se à construção da e-volve.one, onde trabalha com recrutamento especializado, Executive Search, estratégia de talentos e desenvolvimento de novas soluções que combinam tecnologia, inteligência artificial e experiência humana para repensar a forma como empresas encontram e escolhem profissionais.

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